Era uma vez uma sereia solitária que gostava de senta em uma rocha na superfície do mar, não muito longe de sua morada no fundo do onceano. Quase todos os dias, assim que terminava seus estudos, subia à rocha e ficava olhando o sol se pôr e os navios e barquinhos de pescadores voltarem para casa, uma vez que a pedra localizava-se perto de uma grande pedaço de terra. Quando o sol lhe dava a graça de um último raio de luz, lançado em sua direção formando um brilho laranja intenso, ela retribuía com um largo sorriso, dava uma última olhada nas ondas do mar, e voltava para casa.
Tal gesto, em seu “mundo” era completamente proibido e era um peixinho amigo que guardava e protegia o segredo da sereia.
- Como foi lá em cima? – perguntou o peixe amarelo de caudas vermelhas e gigantescos olhos verdes
- Lindo, como sempre! – respondeu a alegre sereia – Hoje os pássaros voavam um pouco mais rápido, enquanto os barcos pareciam não ter pressa de voltar para casa. Devido a eles, as ondas estavam mais largas e intensas, o que fazia com que o sol brilhasse ainda mais. Tudo simplesmente perfeito!
- Não sei que graça você vê nisso tudo, mas desde que você esteja feliz, eu estarei feliz também!
- Que bom! Pena que nem todos pensam assim...
- Pois é! Falando nisso.. amanhã não poderei vigiar para você, terei que ir mais cedo para casa pois mamãe está dente e maninha não poderá cuidar dela pois tem compromissos.
- Ah, sem problemas! Eu não pretendia subir amanhã de qualquer forma, meus estudos terminarão mais tarde, eu teria pouco tempo e seria muito arriscado.
Depois de conversarem mais um pouco, os dois se despediram e cada um tomou o seu rumo. Á noite, em um sono profundo, a sereia teve o mesmo sonho que tivera desde pequena. Nas ondas ela via boiar um corpo em sua direção, um homem. Porém, com o brilho do sol no seu olhar, ele não a via, e, quando acordava, voltava nadando em direção à terra. No sonho, por causa das ondas, o homem nunca chegaria até ela. Ele sempre estaria vindo mas nunca chegaria, assim como o amanhã, algo que ela nunca conseguiria alcançar.
Quando pequena, a sereia sofreu, junto com toda a família um trauma muito grande, que foi a perda do irmão mais velho. Tentando chegar à superfície, ele fora “atropelado” por um grande navio que estava de passagem. Tal tragédia nunca fora esquecida e dela viera a regra de que nenhum sereia ou sereia poderia jamais subir à superfície e uma vez que o fizesse, seria exilado para sempre. Por puro medo, nunca ninguém havia quebrado tal regra até que ela, decidindo libertar-se do peso de pagar o preço do erro do irmão, desobedeceu-a e descobriu um novo mundo. O mundo do sol, da lua, dos barcos.
Para ela, estar na superfície não era só admirar uma bela vista, mas sim interagir com um mundo totalmente novo e desconhecido, um mundo que ela admirava, acima de tudo. Ela, em cima da rocha, era apenas uma observadora, que, através da mesma, interagia com o mundo á sua frente, uma vez que essa era parte de tal mundo. Era por isso que, sendo uma participadora de tal emancipação do infinito, ela não entendia porque, em seus sonhos, ela não podia resgatar o homem que boiava à sua frente mesmo sabendo que, apesar de estarem eternamente vindo, as ondas nunca chegam.
Assim como tudo em sua vida eram as ondas. Por mais que ela estudasse, sabia que nunca ia parar de estudar, por mais que ajudasse a família o quanto precisasse, sabia que esse vínculo nunca se quebraria, e por mais que, corajosamente subisse á superfície deixando tudo e todos para trás, sabia que a regra sempre existiria (mesmo que desnecessariamente) e que o que fazia sempre seria considerado um erro, por mais que não fosse.
No dia seguinte, tendo terminado seus estudos bem mais cedo do que esperava, decidiu visitar sua amiga rocha, mesmo sem a segurança de seu amigo amarelo. Chegando lá, teve uma enorme surpresa: chovia! Nunca havia chovido antes e, para a garota de caudas, foi uma experiência indescritível. Ver golfinhos pulando de um lado para o outro numa dança de alegria, ouvir as nuvens cantarem aos sons grotescos dos raios e o leve toque da chuva no mar fez com que ela se encantasse a ponto de perder a razçao, de tão grande era sua emoção.
Porém, junto com a razão, a sereia perdeu a noção do tempo, e quando deu por si já era noite. Como que assustada com a escuridão do céu, começou a mover-se rapidamente para descer. Numa fração de segundo, sentiu um leve arrepio percorrer seu corpo, o que a fez olhar para frente uma última vez. Lá estava, ao brilho da luz da lua o – de certa forma tão esperado, corpo humano! Ela não pôde acreditar no que seus olhos viam. Achava que, de certo modo, estava tão perturbada por tudo o que acontecer que era, simplesmente, somente sua imaginação. Mas ele brilhava, vinha em sua direção, não tinha como não ser real.
De súbito, não moveu sequer uma mínima curva de seu corpo, não ousou respirar. Mas assim que voltou a si, não pensou sequer uma vez antes de se jogar no mar. Ela sabia, tinha certeza que ele não viria até ela, ele nunca viria até ela! Ela poderia voltar para casa, todos deviam a estar esperando. Eles não precisariam saber de nada, afinal, sabiam que ela chegaria mais tarde. Ou então, sem se importar com sua vida lá embaixo e com as conseqüências de seus atos, ela poderia simplesmente parar, e observar. Ver o corpo ir embora, assim como ela fazia com tudo em sua vida. Parar, e ver seus sonhos irem embora.
Mas não, não foi nada disse que ela fez. Imediatamente, jogou-se no mar e nadou o mais rápido que pôde. Era escuro, a chuva era forte e fazia um barulho ensurdecedor, o correnteza estava forte. Mas ela não se importou com nada disso, simplesmente nadou. Ela sabia que estava errada, que estava indo contra as leis de sua natureza. Que, como apenas observadora, ela jamais deveria interagir com o mundo exterior. A natureza ria, debochava dela. Como fora tola, havia ganho o privilégio de conhecer um novo mundo mas não se contentou com isso. E não, ela não se contentara, jamais se contentaria, porque, por mais que a pedra fosse algo morto, era ela que dava vida a sua vida, e se a sua estava lá, ela jamais a deixaria passar junto com as ondas.
Ela de manhã cedinho, o sol mal começara a raiar quando ele levantou. Não conseguia respirar direito, tinha areia em todo o corpo e muita água do mar na boca. Olhou para o lado, não viu ninguém: a praia estava deserta. Caminhou por quase duas horas, sentia imensa sede, mal conseguia se mover, sentia que poderia morrer a qualquer minuto. Em certo momento, avistou á frente dois corpos atirados na beira da areia. Um estava mais à frente, o que indicava que já havia levantado e se locomovido, poderia estar vivo ou morto. O outro ainda estava sendo arrastado pelo vai-vém da água rasa, este com certeza estava morto. Aproximando-se um pouco mais, identificou no primeiro o corpo do amigo que velejara com ele na noite passada. Estava e até em melhores condições do que ele, mas inconsciente. Quando olhou para trás mal acreditou no que seus olhos lhe mostraram. Uma sereia? Rapidamente lembrou-se de tudo o que acontecera na noite passada.
Assim que a inesperada chuva começou, ele e seu amigo lembraram-se de uma pedra com uma estátua de uma sereia em cima – a qual, eles nunca compreenderam, o que fazia ali – pela qual eles passavam vez ou outra na frente. Foram até lá com a intenção de amarrar uma corda na estátua e prender o barco até que a tempestade acabasse, mas o barco virou um pouco antes de eles chegarem. Mesmo um pouco inconsciente, ele sentira as ondas o levando para a pedra e, com esperanças de salvar-se lá, deixou-se levar. Quando estava quase chegando, viu a estátua se mexer e vir em sua direção. Sim, era ima sereia afinal. E sim, ela o havia salvo.
De certa forma feliz por seu amigo estar inconsciente, uma vez que ele não aceitaria a situação da mesma forma, ele carregou-o até o vilarejo e lá os dois foram tratados com todo o cuidado necessário. No final do dia, já recuperado, o homem decidiu voltar ao lugar onde encontrara a sereia, e lá estava ela. Conferiu: estava morta. Mesmo sem compreender o seu ser, ou o que ela fazia todos os dias na rocha, ele pensou que lhe devia a vida, e o mínimo que ele podia fazer ela devolve-la ao lugar de onde ela saiu para salva-lo.
Assim, o homem pegou seu barquinho, e acompanhado do cadáver da sereia remou até a rocha. Lá, a deixou sentada, na mesma posição que sempre estivera. Junto com o último raiar do sol, ele deu um sorriso á sereia e disse, com a mais profunda sinceridade “Obrigado”. E lá a sereia pereceu, vendo-se de uma vez por todas liberta de todas as regras e obrigações. Tendo-se libertado da proibição de não poder fazer parte de um novo mundo, uma vez que agora, junto com a rocha, totalmente sem vida como ela, vivia a alegria infinita de poder ser, finalmente, parte de tal mundo. E com a tranqüilidade de saber que ninguém jamais viria á superfície busca-la para leva-la para baixo novamente.



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