To sem ânimo pra postar, então deixo pra vocês essa história que eu fiz esses dias. Espero que gostem!
(continua no post seguinte)
Ela caminhava sozinha pela rua. Estava tão tonta pelas drogas que havia consumido, que nem lembrava sequer o nome delas. Já não pensava mais na sua vida, nos problemas em seu trabalho, ou naquele desgraçado que a abandonou e a levou àquele ponto. Já não pensava no que faria quando chegasse
A certo ponto do caminho, ela viu uma luz. Não sabia definir se era um poste, um carro, ou alguém segurando uma lanterna. O máximo que ela pôde fazer foi desviar-se, o que a levou direto para uma vala. Lá, atirada no meio do buraco com cheiro de podre, cheio de ratos, passando por cima do mijo da calçada, que dava direto em suas narinas, ela descobriu que alguns dos seus sentidos voltara, pois ela chorava desesperadamente.
Pensava em seu trabalho, em como tudo andava mal por lá. Se ela tivesse feito um pequeno esforço ao invés de ficar se queixando, poderia até ajudar a concertar alguma coisa, ao invés de ficar só reclamando e esperando sua hora de ir embora para partir para outra. Pensava naquele ex-namorado. Talvez se ela tivesse sido mais compreensiva... Pensava em sua mãe, que permitia que seu pai fizesse com ela o que quisesse. Pensava que, preferia que ele estivesse ali em seu lugar, para que ela pudesse cuspir em sua cara e dizer “Morra cretino”. Mas ao mesmo tempo, pensava que se ela tivesse sido mais cuidadosa, talvez não tivesse acontecido a seu irmão mais novo o mesmo que aconteceu com ela.
De repente, todos seus sentidos voltaram. Ela não chorava mais de dor ou de solidão, ou de qualquer coisa além de arrependimento, no momento em que ela descobriu que morreria ali, atirada numa vala, drogada, com toda sua vida mal resolvida. Por um momento, chegou a pensar que o mundo seria melhor sem ela, se fosse para ela continuar fazendo o que fazia. Reclamava que certas pessoas estragavam sua vida, mas pensou em quantas vidas ela havia estragado.
Deu-se conta de que queria viver, não queria morrer ali, sozinha. Queria ter uma nova chance, queria poder levantar e fazer tudo certo, pedir desculpas. Já não se importava em morrer, mas se importava com o que estaria deixando para trás. Mesmo se ela morresse e ninguém ligasse, ela queria concertar seus erros para que, quando se fosse, não tivesse pessoas a odiando. Não deixasse na memória de alguns, a mágoa e o ressentimento. Ou pior, o sabor da vitória, ou a alegria por sua morte.
Quando ela começou a escorregar, sentiu que era o fim, não havia mais nada a fazer. Ela pediu a Deus, a Jesus, a Jeová e até mesmo a Buda, mas não tinha jeito, ela iria morrer. Chegando no fundo da vala, ela parou de respirar, pois se afogava na água da chuva do dia anterior. Sua mão sentiu uma outra mão quente e suada a tocando, e a puxando com força. Ela subiu, já não estava mais na água suja, mas ainda estava emperrada.
- Cuidado, não faça nenhuma força que eu te puxo.
Disse uma suave voz. Momentos depois lá estava ela, no pior estado possível, abraçando um jovem policial e o agradecendo por tudo, contando sobre sua trágica e patética aventura, mas mais feliz do que nunca imaginara que seria.
Ela foi cantarolando para casa, tomou um longo e demorando banho, repensando tudo o que lhe havia passado pela cabeça quando estava na vala e tomando uma importante decisão: Ela mudaria! Faria tudo diferente, faria tudo melhor, daria sempre o melhor de si em tudo o que fizesse e espalharia sua história para que as outras pessoas não tivessem que passar pelo que ela passou para aprender o que ela aprendeu. Vestiu seu pijama, tomou um café e foi dormir, sem antes colocar o relógio a despertar ás 6 e meia, pois pretendia chegar um pouco mais cedo no trabalho para dar uma ajeitada nas prateleiras do lugar.
No dia seguinte, quando o relógio despertou ás 6 e meia, ela estava com tanto sono que nem lembrava o que acontecera na noite passada, muito menos porque cargas d’água colocara o relógio a despertar mais cedo. Chegou no trabalho atrasada, como sempre. Durante a noite, saiu novamente com os “amigos”. Entrando no bar ela repentinamente lembrou-se do que havia acontecido, e de todo seu ideal de mudança. Foi quando lhe veio á cabeça “Eu não tenho jeito mesmo. Guardinha idiota, devia ter me deixado lá, hehe”.
Na semana seguinte, ouviu-se o barulho de uma poltrona cair no chão. Jana, a empregada, foi checar se estava tudo bem com Dona Vera, que gostava de ver o noticiário do final de tarde. A senhora estava jogada no chão, havia caído da poltrona, pois desmaiara ao ver o que havia passado no noticiário. Jana parou para prestar atenção..
- Esse guarda havia visto a garota dias atrás, caída numa vala. O que o senhor tem a dizer a respeito?
- Bem, ela estava lá jogada, se afogando, foi quando ajudei a subir. Ela estava muito drogada, muito tonta, mas mesmo assim ficou muito alegre e disse que iria para casa sozinha. Disse que nunca mais faria uma coisa dessas, que recomeçaria.. etc..
- Mas o senhor tem certeza que era a mesma moça?
- Sim, certeza absoluta!
- Você tem motivos para acreditar que foi um suicídio?
- É o óbvio a se pensar, mas não acredito que ela faria isso, não com todas as coisas que ela me disse naquela noite...



Djibuti, Mulher, de 15 a 19 anos, Sanskrit, Inupiak, Informática e Internet, Cinema e vídeo, Música